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01/10/2020 às 15h57min - Atualizada em 01/10/2020 às 15h51min

SOLIDÃO E CUIDADO DE SI EM TEMPOS DE ISOLAMENTO SOCIAL

Marcelo Moya
Marcelo Moya

Certamente em algum momento da sua vida e pelas mais diversas razões você já teve que lidar com o sentimento de solidão. E neste período de pandemia, com os desdobramentos das medidas sanitárias de isolamento social e de seus inevitáveis efeitos colaterais na sociedade, este tema volta a ganhar destaque.

Mas afinal, o que é solidão? Em linhas gerais, pode ser definida como um sentimento de vazio, angústia e ausência que resulta em desconexão com o meio social. As pessoas estão se sentindo cada vez mais sozinhas e alguns fatores como morar só, violência urbana, facilidades tecnológicas, associado às mudanças da comportamento na vida moderna, e por fim, esta propagação da Covid-19 que distanciou as pessoas umas das outras, estão corroborando inclusive, com o desencadeamento de patologias mentais como por exemplo, a ansiedade, a depressão e o suicídio.

Um estudo na Inglaterra apontou que apesar da solidão atingir principalmente os idosos, a surpresa recai na faixa entre 16 a 24 anos, onde 40% dos entrevistados se descreveram como solitários, mesmo com vivência familiar, escolar e redes sociais, um verdadeiro paradoxo. A pesquisa também considerou os aspectos culturais, psicológicos, ambientais, familiares e até religiosos nas intenções de isolamento.

Para Sigmund Freud, o fundador da psicanálise, o adoecimento psíquico conflituoso e de anseios egoístas e destrutivos tende a atingir desfavoravelmente a relação do Eu com o mundo externo, retirando o indivíduo da realidade e consequentemente de suas relações sociais. As máximas narcísicas: "antes só do que mal acompanhado", "eu me basto", ou ainda, "ninguém me ama, ninguém me quer", descrevem em certa medida, o tom de autossuficiência neurótico ou psicótico na estruturação deste sujeito. Ele afirma que a nossa constituição é definida por vínculos de identidade social, sem desconsiderar, contudo, traços de independência e originalidade que nos torna singulares na sociedade das massas.


Uma outra importante figura do pensamento psicanalítico, Melanie Klein, dedicou inclusive uma publicação específica sobre o assunto. Ela afirma que este sentimento íntimo de solidão reflete uma condição emocional ligadas às experiências latentes da vida mental, despertadas pela angústia de abandono, perda, medo e frustração de expectativas não correspondidas. Klein reitera que a reclusão pode ser percebida, mesmo que de forma imaginária, como um sinal de defesa contra uma realidade insuportável, angustiante e retaliadora. Também afirma que uma personalidade mais integrada, fortalecida e disponível à interação com a realidade é essencial para suportar uma solidão.

Ainda na lista de grandes mestres da psicanálise, o pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott  em uma de suas principais publicações, considerou haver uma diferença entre sentir medo de ficar sozinho, desejar ficar sozinho, e de ser capaz de estar só, ou seja, se individuar mesmo diante de um outro, como prova de considerável amadurecimento emocional. Para ele, se no sofrimento prevalece a decisão de se isolar, é com uma vida mental estável que o indivíduo poderá lidar, inclusive de maneira criativa, com as crises de solidão ou distanciamento.

A impotência frente ao sentimento da solidão poderá se tornar um estímulo aos vícios, às práticas de hábitos nocivos, consumos desenfreados, relações tóxicas e abusivas, entre outros, na tentativa de suprir o vazio existencial próprio do se sentir só. Portanto, além de fatores externos, ressalta-se a condição psíquica como processo determinante. E o isolamento social vem se tornando um verdadeiro teste para aferir o estado emocional das pessoas e de como elas estão sendo, positiva ou negativamente, impactadas no trato com elas mesmas e na convivência familiar.

Qualquer um de nós podemos no sentir afligidos emocionalmente pelo fenômeno do distanciamento social, e isto pode percebido dentre alguns aspectos, pela intensidade de nossas angústias e conflitos, sentimentos inquietantes, pensamentos perturbadores, profundo desânimo, ações que inibem a vida pessoal, intelectual e os relacionamentos, fato é, que sinais de mal estar mental que remetem à solidão podem ser indicativos de alguma desorganização psíquica que em certos casos reivindicará ajuda especializada para garantir uma melhor qualidade de vida e saúde emocional.

Numa época de complexidades e restrições, fazer análise propicia um espaço para se discernir, aprender um outro olhar de si pela exploração do inconsciente (a parte que desconhecemos de nós mesmos), processar emoções, ressignificar sentimentos, expandir a capacidade de pensar, amadurecer psiquicamente, como desdobramentos de uma melhor aproximação de verdades encobertas da nossa personalidade através das quais nos faz sujeitos mais autênticos, podendo assumir plenamente aquilo que somos e sem equívocos, mas com liberdade, consciência e responsabilidade.

Como canta Alceu Valença: “A solidão é fera, a solidão devora, é amiga das horas, prima-irmã do tempo, e faz nossos relógios caminharem lentos causando um descompasso no meu coração...”

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Marcelo Moya é psicanalista. Membro docente e analista didata do Instituto Melanie Klein da Escola Paulista de Psicanálise. Reside em Jacarezinho/PR. Atende local e on-line para todo Brasil com sessões de análise, espaço de escuta, supervisão clínica, cursos e palestras. Contatos pelo WhatsApp 46.9.9982-8997 ou pelo e-mail contato@marcelomoya.com.br. Informações pelo site www.marcelomoya.com.br
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Psicanalista, membro docente e analista didata do Instituto Melanie Klein da Escola Paulista de Psicanálise.

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