MENU

02/11/2021 às 18h16min - Atualizada em 02/11/2021 às 18h12min

OS MORTOS NAS MENTES DOS VIVOS

"Mas pra aprender a morrer, foi necessário viver, e eu vivi ..." (Baden Powell)

Marcelo Moya
 
A homenagem em memória dos mortos, também conhecida como Dia de Finados, teve seu início no ocidente por iniciativa do cristianismo romano no segundo século, e fontes históricas afirmam que foi somente em meados do século XIII que a data foi oficialmente instituída nas pautas litúrgicas de Roma.

Mas este olhar para os mortos não se restringe apenas às confissões religiosas ocidentais. O tema remonta os primórdios das civilizações por meio de diversos povos que de alguma maneira exaltavam a morte através de suas culturas, crenças e ritos. Em países como o México, por exemplo, ela está profundamente enraizada nos costumes e tradições daquela nação centro-americana.

Mas afinal, o que é a morte? Para alguns talvez represente o fim de tudo, um ponto final. Para outros um meio para se obter a eternidade ou a oportunidde de novos recomeços. Vertentes religiosas e espiritualistas normalmente consideram as três principais perguntas existenciais da humanidade: de onde viemos, por que estamos aqui e para onde vamos depois desta vida, e neste ponto, a morte se torna um assunto central nos enigmas da humanidade.

E como a morte é pensada na mente dos vivos? Para Ernest Becker "ela é uma ideia que move a vida" 
aponta o escritor em seu premiado livro A Negação da Morte . A psicanalista Melanie Klein considera que o medo da morte é a causa primária da ansiedade desde o nascimento. Freud fez alguns desdobramentos acerca da melancolia (depressão) associando-a às experiências de luto, bemo como organizou modelos de teorias pulsionais nominando-as de vida e morte.

"... se da morte não se obtém muitas respostas, dela ao menos
se pode evocar uma pergunta: afinal, o que é a vida? "

 
A herança de aspectos culturais, religiosos, filosóficos, sociais, antropológicos e até científicos sustentam a complexidade acerca da da finitude do ser. De qualquer forma, o Dia de Finados é um momento apropriado para refletir a vida na perspectiva da morte. Aliás, se da morte não se obtém muitas respostas, dela ao menos se pode evocar uma pergunta: afinal, o que é a vida?

A médica Ana Cláudia Arantes, especialista em intervenções de luto e cuidados paliativos com pacientes em estado terminal em São Paulo, afirma que "a morte não é bonita, e que embora sua beleza seja o impar de uma tristeza, a vida sim que é bonita", como bem cantou Gonzaguinha, “eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita, é bonita...”
 
O médico patologista e professor Paulo Saldiva considera que,“no fundo, o verdadeiro mistério não está na morte, mas está na vida”, e que embora seja capaz de emitir um atestado de morte, jamais dará um atestado de vida dado a sua complexidade. Embora a vida seja às vezes um soco no estômago como escreveu Clarice Lispector, "viver é melhor que sonhar, a vida é uma coisa boa" como compôs Belchior.

 
"... é morrendo que se aplaca o insuportavel da vida, ou é vivendo
intensamente que se obtém um alento para o insuportável da morte?

Se tantos vivem pela antecipação da própria morte, outros viverão para sempre apesar de já terem morrido. Retomando Lispector, "cada dia é um dia roubado da morte, mas é esta morte que nos ajuda a suportar às vezes o insuportável”, e neste caso nos indagamos: será que é morrendo que se aplaca o insuportavel da vida, ou é vivendo intensamente que se obtém um alento para o insuportável da morte?

Embora tão paradoxal possa parecer o viver e morrer que inspiram de poetas a pregadores, é na dor e na saudade pelos que já partiram que buscamos consolo, serenidade e silêncio, mas que nos sirva também como uma fagulha para manter acesa não somente a chama pela vida, mas a oportunidade para pensarmos e ressignificarmos nossa breve peregrinação neste mundo com mais humildade e virtude.

 
Faço minhas as palavras do saudoso psicanalista britânico Winnicott que certa vez disse: “ quando eu morrer, eu quero estar bem vivo.” Até porque, como bem cantou Raul Seixas, “a morte, surda, caminha ao meu lado, e eu não sei em que esquina um dia ela vai me beijar ...” 

"Mas pra aprender a morrer, foi necessário viver, e eu vivi ..."  (Baden Powell)

_____________________
Marcelo Moya 
é psicanalista, membro do Ékatus Instituto, docente no Programa de Formação e Extensão da Escola Paulista de Psicanálise. Atende on-line para todo o Brasil. [ www.marcelomoya.com.br ]. Contatos: 43.9.9102-6577 
Link
Marcelo Moya

Marcelo Moya

Psicanalista, membro do Instituto Ékatus da Escola Paulista de Psicanálise.

Relacionadas »
Comentários »
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Precisa de ajuda? fale conosco pelo Whatsapp