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13/05/2022 às 21h57min - Atualizada em 13/05/2022 às 21h50min

SEXTA-FEIRA 13: SUPERSTIÇÃO E OBSESSÃO

Quando mentes dão sorte ao azar.

*Marcelo Moya

Mais uma sexta-feira que se passou. Não uma qualquer de nossa rotina semanal, mas uma sexta-feira 13, que já inspirou tantas histórias e até longas sequências cinematográficas no gênero do terror, e quem não se lembra do famoso personagem psicopata Jason. Mas de onde se origina toda a mística que envolve esta data? Fontes afimam que ela possui forte ligações com elementos religiosos, superstições, lendas, folclores populares e eventos mitológicos.

Há muitas teorias, das conhecidas às mais complexas. Passa pelo século 14 por exemplo, quando na França o rei persegue os Templários, sendo que num dia 13 de uma sexta-feira manda prender, torturar e matar os heróis dos peregrinos, cuja data passaria a ser considerada amaldiçoada. As mitologias apontam para um banquete de deuses que só aceitava 12 participantes, mas que contou com a presença de um 13º rebelde, que por ter sido excluído da selecta lista, manda o irmão assassinar um dos membros para tomar o seu lugar, e desde então, teriam acreditado que uma mesa com 13 daria azar. Uma outra lenda que mais se aproxima da sexta-feira 13 é sobre a história da deusa do amor chamada Friga (de onde se origina friday, do inglês sexta-feira), que transformada em bruxa, exilou-se num monte, e para se vingar se reunia todas as noites de sextas com outras 11 feiticeiras e Satanás, num total de 13 indivíduos para lançarem pragas sobre a humanidade.

O que sabemos mesmo é que em diversas culturas, inclusive no Brasil, este dia remete à superstição. Mas o que seria uma superstição? Chinelo de cabeça para baixo, passar debaixo da escada, abrir guarda-chuva dentro de casa, quebrar espelho, não comer aves na virada de ano, bater na madeira três vezes, noivo não poder ver a noiva antes do casamento, gato preto, orelha vermelha como sinal de que estão falando da pessoa, coceira na mão que atrai dinheiro, chinelo atrás da porta para visita chata ir embora logo e deixar que a mesma visita abra a porta do anfitrião na saída para não voltar mais, achar trevo de quatro folhas, amuletos diversos, arruda e espada de são jorge para dar sorte, dinheiro embaixo do buda de costas para a porta par atrair prosperidade, e tudo mais que a imaginação permitir.

Na psicanálise, a neurose é pensada como uma expresssão simbólica de um conflito psíquico alicerçado no infantil do indivídio, cujos sintomas perfazem um interjogo de desejos e defesas do eu, configurando-se de diversas maneiras dos quais a chamada neurose obssessiva, um dos quadros principais da psicanálise de Freud e que se organiza tipicamente em forma de sintomas compulsivos tais como ideias obessivas, compussão a realizar ações indesejaveis (toc, tiques), luta contra certos pensamentos, ritos esconjuratórios, ruminações mentais, inibições de pensamento, auto-recriminações, escrúpulos em excesso, comportamentos rígidos ou inflexíveis, habitos repetitivos (como abrir e fechar portas e gavetas ou girar chaves várias vezes), entre outros.

A neurose obsessiva supervaloriza o intelecto com ideias absurdadas e divididas entre uma parte lógica e outra mágica ou onipotente e um estímulo às superstições, crendices e práticas religiosas cercadas de exageros e rituais como forma de tentar amenizar sentimentos e impulsos considerados inapropriados, ou de tentar isolar algum pensamento percebido como mal dentro da mente. As superstições serviram então como modos de combater sentimentos hostis como a culpa ou formas de repúdios. Fazer análise é uma opção para pessoas que se descrevem como obsessivas (caso se incomodem com isso evidentemente), e intervenção psiquiátrica também é necessária em alguns casos mais severos.

Se “a superstição é a realidade dos espíritos fracos’ como disse o filósifo irlandês do século 18 Edmund Burke, de qualquer maneira, “evitar superstições seria uma outra forma de superstição” como afirmou outro filósofo britânico Francis Bacon, mas coube ao filósofo grego Demócrito no século V a.C. questionar “quem tem o direito de chamar de superstição a crença de outras pessoas?". Para o médico Lair Ribeiro, ter sorte é estar pronto quando uma oportunidade bater à porta, azar é quando uma grande chance aparece na vida da gente e não estávamos preparados para ela, alías, que azar!

Pois bem, eis mais uma sexta-feira 13, e tudo vai depender do valor que atribuímos a tudo isso, se mentalmente adoecidos, ou com boas doses de humor, do que jeito caminha este mundo tão conturbado, entre céticos e crédulos, só nos resta a máxima atribuída ao espanhol Miguel de Cervantes: “ - Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay...”.

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*Marcelo Moya é psicanalista, membro efetivo do Instituto Ékatus da Escola Paulista de Psicanálise onde também é docente do programa de formação. Atende (inclusive os obsessivos) com sessões de análise e supervisão clínica. Também ministra cursos e palestras.  www.marcelomoya.com.br | Contatos: WhatsApp (43) 9.9102-6577.
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Marcelo Moya

Marcelo Moya

Psicanalista, membro efetivo do Instituto Ékatus da Escola Paulista de Psicanálise.

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