MENU

01/11/2021 às 23h18min - Atualizada em 02/11/2021 às 00h00min

Morre Nelson Freire, um dos maiores pianistas do século

Ele foi um dos maiores intérpretes de Beethoven, Chopin e Mozart. Nelson Freire morreu nesta segunda-feira (1º), no Rio, aos 77 anos.

G1
https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/11/01/morre-nelson-freire-um-dos-maiores-pianistas-do-seculo.ghtml
Ele foi um dos maiores intérpretes de Beethoven, Chopin e Mozart. Nelson Freire morreu nesta segunda-feira (1º), no Rio, aos 77 anos. Morre Nelson Freire, um dos maiores pianistas do século
O mundo perde o talento e a genialidade do brasileiro Nelson Freire. Um dos maiores pianistas do século morreu nesta segunda-feira (1º), no Rio, aos 77 anos.

Um piano que se cala e que entristece o mundo da arte. É a partida de um prodígio, genial, incomparável: Nelson Freire, e todos os seus adjetivos reconhecidos pelos maiores.

“O Nelson era para nós uma referência definitiva, não só em termos pianísticos, mas humanos também. Como definir um gênio? Um gênio é exatamente isso. Ele descobria efeitos, descobria cores, descobria uma qualidade sonora que emanava do texto musical. Esse era o poder do Nelson”, relembrou o maestro Isaac Karabtchevsky.

A tradução da beleza pelo talento imensurável.

“Fazer música não é uma competição, você tem que estar tranquilo. Não tem que ter nem menos nem mais responsabilidade do que a música”, disse Nelson Freire no documentário dirigido por João Moreira Salles.

A genialidade de Nelson Freire se apresentou muito cedo. O mineiro de Boa Esperança, em Minas Gerais, desconhecia limites. As primeiras notas ao piano aconteceram aos três anos de idade, observando a irmã tocar. Em seguida, começou a fazer aulas, mas foram poucas.

“Depois de 12 aulas, ele disse que não tinha mais nada para ensinar. Então, chamou o meu pai e disse que a melhor coisa que ele podia fazer era se mudar para o Rio de Janeiro, capital da República”, contou em entrevista.
E não é de se espantar que, aos 4 anos, Nelson Freire fez seu primeiro concerto, em São João del-Rei (MG).

Aos 12, ele foi premiado no Concurso Internacional de Piano, no Rio de Janeiro. Era a porta que se abria para o mundo.

“O presidente da República estava - Juscelino Kubitschek - o teatro estava repleto. Foi em 1957. Naquela época, não havia nada disso internet, então, esse contato com pianistas de várias nacionalidades - eu era o mais moço de todos - abriu muito os meus horizontes. Foi uma coisa muito importante na minha vida”, disse Nelson Freire em entrevista. Importante para ele e imprescindível para os maiores palcos do planeta.
Nelson Freire fez carreira na Europa e se apresentou com as melhores orquestras. E foi reverenciado por todas as plateias por onde passou.

“Eu me lembro de assistir a um recital que ele deu no Teatro Châtelet, em Paris, todo dedicado a Chopin, em que ele foi ovacionado e retornou nove vezes ao palco. Esse era Nelson Freire”, disse João Guilherme Ripper, diretor da Sala Cecília Meireles.

Em 2012, Nelson Freire voltou ao palco do Teatro Municipal de São João del-Rei, onde fez seu primeiro concerto, e tocou 62 anos depois.

No ano seguinte, lançou um álbum de clássicos e foi premiado com o Grammy Latino. Esse se juntou a muitos outros prêmios.
O documentário “Nelson Freire”, de João Moreira Salles, de 2003, mostra a parceria de décadas com a pianista argentina Martha Argerich. Foram muitas turnês com a amiga.


Foi um dos maiores intérpretes de Beethoven, de Chopin e Mozart, um dos seus compositores favoritos.

“O médico cuida do seu corpo, o professor te educa e o artista alimenta o seu espírito”, afirmou Nelson Freire em entrevista.

Nesta segunda-feira, os lamentos vêm de todos os cantos.
“A morte de um gigante do piano” foi assim noticiada por veículos mundo afora, como o jornal francês Le Monde.
A revista inglesa Gramophone, referência em música clássica, lembrou Nelson Freire como um músico de grande virtuosismo e um pianista de gloriosa sensibilidade poética.


“Não é só o Brasil que perde Nelson Freire. É o mundo que perde Nelson Freire considerado, quase unanimemente, um dos cinco maiores pianistas do século 20, começo do século 21”, ressaltou o musicólogo Ricardo Cravo Albin.

E tanta habilidade vinha mesmo de um jeito único de acariciar as teclas do piano, até nos acordes mais difíceis. E olha que ele nem tinha as tais mãos de pianista, com dedos longos. Eram mais do que isso: eram mãos de Nelson Freire.

“Minha mão não tem nada de especial, pelo contrário. É meio pequena. Os dedos são bastante curtos, os dedos são um pouco grossos. A cabeça é que manda na mão, e o ouvido também. A coisa mais importante para mim é o estudo. É a coisa mais difícil para mim. É mais fácil tocar do que saber estudar”, disse Nelson Freire em entrevista.

O pianista Arthur Moreira Lima lamentou a morte do amigo. Os dois se conheceram ainda crianças, com menos de dez anos de idade.

“Uma grande perda para todos nós que gostávamos tanto dele e, sobretudo, para a música brasileira, para a cultura brasileira. Ele significou muito para o país como grande pianista, como grande artista que é”, afirmou Arthur Moreira Lima.

A última apresentação de Nelson Freire, no Rio, foi na Sala Cecília Meirelles, em 2018.

O piano já sentia falta de Nelson Freire há muito tempo. No final de outubro de 2019, o pianista sofreu uma queda enquanto fazia uma caminhada no calçadão da praia. Precisou fazer uma cirurgia no braço direito. Teve que cancelar concertos no Brasil, na Alemanha, Inglaterra, Holanda, França e Rússia. Enquanto se recuperava, veio a pandemia. Foi um afastamento longo e doloroso demais para quem amava o piano acima de tudo.

A amiga Myriam Dauelsberg, presidente do Instituto Dellarte, foi uma das últimas pessoas a terem o privilégio de ouvir Nelson tocando e percebeu a tristeza dele.

“Passei a tarde toda de ontem com ele. Ele chegou a tocar piano, tocou Chopin e ainda brincou comigo: ‘Você sabe muito bem que eu não vou voltar a tocar piano como eu tocava antes’. Ele era muito perfeccionista. E hoje de madrugada recebo esse telefonema. Eu não posso acreditar”, contou.

Em entrevista à GloboNews, o maestro João Carlos Martins se emocionou ao falar sobre o amigo, com quem dividiu muitos momentos importantes da carreira.

“Quando eu perdi minha mão direita, em uma madrugada, ele mandou um WhatsApp depois de ouvir um CD meu e, me incentivando, falou: ‘João Carlos, continue, porque sua música é para poucos’. E eu respondi para ele: ‘Nelson, a diferença entre nós dois é que a sua música é para muitos’”, disse.

O amigo Arnaldo Cohen também falou sobre a tristeza pela partida um dos maiores pianistas do Brasil.

“Nelson Freire, certamente, foi um dos maiores nomes do piano - não só brasileiro, do mundo. Esse mundo musical que hoje está de luto. Tocar piano era o que o Nelson sabia fazer e como poucos. Vá em paz, Nelson”, afirmou o pianista.
O pianista brilhante será velado nesta terça-feira (2) no Theatro Municipal do Rio, palco de onde arrancou tantos aplausos.

O cenário agora é de um piano sozinho, o público triste e a arte faltando um pedaço. Mas o mundo agradece por tantas vezes que Nelson Freire nos encheu de emoção, antes do seu silêncio.
Documentário
A reportagem mostrou que o diretor João Moreira Salles realizou o documentário “Nelson Freire”. O diretor seguiu o pianista por dois anos no Rio, em São Paulo, na França, Bélgica e Rússia. A produção venceu o Grande Prêmio de Cinema Brasil 2004 na categoria. Segundo João Moreira Salles, Nelson Freire representava - e representa - uma outra face do Brasil: o lado capaz de nos salvar.
O documentário “Nelson Freire” está disponível no Globoplay. Não assinantes também têm acesso durante 15 dias.

Fonte: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/11/01/morre-nelson-freire-um-dos-maiores-pianistas-do-seculo.ghtml
Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Precisa de ajuda? fale conosco pelo Whatsapp