06/06/2022 às 10h50min - Atualizada em 06/06/2022 às 10h50min

​Parceria científica entre UENP e UEL busca desenvolver tecnologia para combater doenças na lavoura

Assessoria
Gilberto Abelha/UEL
O objetivo da parceria é desenvolver um biofungicida microbiano, tipo de pesticida que utiliza microrganismos para prevenir pragas e doenças em plantações.
As universidades estaduais do Norte do Paraná (UENP) e de Londrina (UEL) firmaram, nesta quinta-feira (2), termo de cooperação com a empresa paulista Leaf Agrociência, que atua no ramo de comercialização de insumos agropecuários e fabricação de defensivos agrícolas e adubos orgânicos enriquecidos com nutrientes minerais, os chamados fertilizantes organominerais. O objetivo da parceria é desenvolver um biofungicida microbiano, tipo de pesticida que utiliza microrganismos para prevenir pragas e doenças em plantações.

A iniciativa contempla TRL (sigla em inglês para a expressão Technology Readiness Level ou Nível de Maturidade Tecnológica) de um produto microbiológico desenvolvido na UENP para o controle da ferrugem asiática, doença que mais tem preocupado os produtores de soja no Brasil. No ano passado, o projeto foi finalista do Programa de Propriedade Intelectual com Foco no Mercado (Prime) e obteve carta patente do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), assegurando a propriedade intelectual para a instituição de ensino superior paranaense.

A próxima fase da pesquisa prevê recursos da ordem de R$ 590 mil, sendo R$ 263,6 mil desembolsados pelo Governo do Estado, por meio do Fundo Paraná – dotação de fomento à produção científica e tecnológica, administrada pela Superintendência Geral de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti). Desse montante, R$ 159,6 mil serão destinados a investimentos e R$ 104 mil para despesas de custeio. O valor restante será aportado pela empresa parceira.

O superintendente de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Aldo Nelson Bona, destacou a importância dessa inovação de origem microbiológica para o agronegócio, segmento estratégico para o Brasil e o Paraná. “Os resultados dessa pesquisa devem impactar as atividades de produtores nacionais de soja, de forma ambientalmente mais sustentável, com potencial de exportação da inovação tecnológica para outros países que também enfrentam problemas relacionados à ferrugem asiática”, afirmou.

O governo tem interesse em viabilizar soluções sustentáveis para a produção de alimentos, utilizando biodefensivos (defensivos biológicos), que são produtos agrícolas desenvolvidos a partir de ativos biológicos. A maioria desses ativos biológicos é de baixa toxicidade e age para eliminar pragas nas plantações, diminuindo a dependência por produtos químicos sintéticos, que são altamente tóxicos.

A expectativa é produzir tecnologia patenteável, com possibilidade de licenciamento para o setor produtivo empresarial. Na atividade agrícola, os produtos biológicos representam alternativa complementar para o manejo integrado e em algumas situações podem substituir por completo os defensivos químicos sintéticos.

PESQUISA – Segundo a coordenadora do projeto, professora Mayra Costa da Cruz Gallo de Carvalho, do Centro de Ciências Biológicas da UENP, o microrganismo que combate a ferrugem asiática foi identificado de forma aleatória. “Ele crescia como um contaminante dos experimentos, impedindo a multiplicação do fungo causador da doença que prejudica a cultura da soja. Passamos a purificá-lo e testá-lo em ensaios de controle da doença e obtivemos bons resultados, o que levou ao registro da patente”, explicou.

Nessa nova etapa, o estudo deve fornecer subsídios para o desenvolvimento posterior de um produto bioquímico (produzido a partir de materiais renováveis) de origem microbiológica para o controle da ferrugem asiática da soja. “Essa cooperação vai permitir escalar a tecnologia e concretizar essa ideia, na forma de produto disponível comercialmente para o mercado”, pontuou a professora.

Na UEL, pesquisadores atuam no desenvolvimento de produtos biológicos de primeira e de segunda geração. A partir do estudo iniciado na UENP, será desenvolvido um produto de segunda geração, em que os princípios ativos do produto final serão metabólicos produzidos por microrganismos e não os microrganismos em si.

O professor Admilton Gonçalves de Oliveira, do Departamento de Microbiologia da UEL, sinaliza o potencial científico para o controle biológico de pragas, considerando os meios naturais, notadamente outros organismos vivos. “O futuro dos defensivos biológicos está nas novas tecnologias, dentre elas os biodefensivos de segunda geração, que utilizam o arcabouço genético de microrganismos na produção de moléculas que integram a formulação do produto final”, afirmou.

Por meio de ensaios laboratoriais, que envolvem diferentes escalas e condições, serão identificadas biomoléculas ativas, a fim de possibilitar a prototipagem de um biofungicida microbiano. Esse fungicida será usado no desenvolvimento de biodefensivos, com potencial para atuar, inclusive, no controle de outros fungos de interesse agronômico, no âmbito do setor hortifrúti (frutas e verduras).

Para obter os resultados esperados os protótipos biológicos e bioquímicos serão testados nas fazendas escolas da UENP e da UEL e em propriedades rurais de agricultores e produtores familiares dos municípios de Londrina e Bandeirantes, na região Norte do Paraná, impactando mais cadeias produtivas de alimentos. Outras cidades vizinhas poderão ser incluídas posteriormente no projeto, ampliando o alcance dessa tecnologia na lavoura.

A equipe envolvida no projeto tem formação multidisciplinar, com professores e estudantes de graduação e pós-graduação, em nível de mestrado e doutorado, de ambas as universidades. Esse aspecto interdisciplinar contribui para as linhas de pesquisa aplicadas e permite aproveitar as expertises das várias áreas do conhecimento, o que reflete na qualificação profissional dos pesquisadores e no avanço da produção científica paranaense.

SETOR – Dados do setor rural apontam que o mercado mundial de bioinsumos para a agricultura deve alcançar, até o final deste ano, a marca de US$ 9 bilhões, o equivalente a R$ 42,4 bilhões, cifra significativa para o desenvolvimento de novas tecnologias nesse nicho de negócios. Nesse cenário, as tecnologias de bioeconomia (sistemas biológicos e recursos naturais aliados a produtos e serviços sustentáveis), a exemplo da biotecnologia microbiana, assumem posições estratégicas na transformação de sistemas alimentares.

Esse movimento inclui processos de produção, controle de doenças e pragas, fertilizantes biológicos e plataformas digitais voltadas à qualidade e saúde em toda a cadeia alimentar. Na atualidade, a produção de alimentos compreende como premissas: a redução de insumos químicos sintéticos; o uso de tecnologias biológicas na produção agrícola (biofertilizantes e biodefensivos); a agregação de valores sociais pelo fortalecimento da bioeconomia; e a minimização de impacto ambiental.

 

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