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11/05/2021 às 09h15min - Atualizada em 12/05/2021 às 00h00min

Tratamento fetal (intraútero) pode aumentar a sobrevida de fetos com hérnia diafragmática congênita

Dr. Márcio Miranda, cirurgião pediátrico, reforça a importância da assistência pré-natal, que auxilia diagnósticos precoces

SALA DA NOTÍCIA Patricia Nascimento
Decorrente do não fechamento dos canais pleuroperitoneais, a hérnia diafragmática congênita atinge um em cada quatro mil nascidos vivos e um a cada dois mil natimortos no mundo. Nas primeiras semanas de gestação, as vísceras abdominais migram para o tórax por um orifício aberto, aumentando a pressão intratoráxica e comprimindo pulmão e coração. Isso enfraquece a área, aumentando a predisposição para HDC, que pode ser diagnosticada a partir da 10ª semana de vida intrauterina através do ultrassom pré-natal, no qual pode-se observar a presença das alças intestinais (e até do fígado) no tórax de forma precisa.

Com o intuito de aumentar a sobrevida, a medicina do Século XXI encontrou uma solução: realizar um procedimento intraútero a partir da 27ª semana de gestação. “O defeito no diafragma faz com que estômago, fígado e intestino subam para o tórax e comprimam coração e pulmão, cujo desenvolvimento acaba comprometido devido à pressão intratorácica. Assim, o pulmão não cresce e acaba hipoplásico (pequeno), culminando em morte por insuficiência respiratória em 100% dos casos não diagnosticados precocemente, mesmo com intervenção e assistência ventilatória no pós-parto. Por isso a importância de a gestante ser bem assistida; com um pré-natal bem feito descobre-se o defeito a tempo de tratá-lo intraútero para melhorar a sobrevida no pós-natal e oferecer condições para que seja operada, já que muitas crianças não têm condições clínicas de concluir o procedimento cirúrgico definitivo”, explica o Prof. Dr. Márcio Miranda, cirurgião pediátrico especialista em procedimentos fetais e intrauterinos.

O tratamento intraútero demanda uma reunião multidisciplinar com a participação de vários especialistas – incluindo médicos fetais, ultrassonografistas, obstetras, cirurgiões pediátricos, neonatologistas, anestesistas, nefrologistas e até de psicólogos. O objetivo é munir a família – especialmente a mãe que, na medicina fetal, também é paciente – com o máximo de informação possível, ponderando não só os riscos, mas os benefícios desse tipo de procedimento para o feto. Numa chance mínima de sobrevivência, a cirurgia fetal oferece uma oportunidade de sobrevida maior, inclusive com a possibilidade do tratamento definitivo no pós-natal.

Durante a cirurgia fetal, mãe e feto são anestesiados. Com uso de uma câmera (fetoscópio de 3mm) introduzida no útero, o profissional entra através da boca do feto e insere um balão para obstruir a traqueia. “Com essa obstrução, o pulmão volta a se desenvolver e a produzir seus líquidos próprios. Com isso, a hipoplasia cessa, favorecendo a melhora da capacidade respiratória do feto”, comenta o médico, reforçando que o desenvolvimento do pulmão é fundamental para a sobrevivência da criança. “Na 34ª semana voltamos a entrar no útero da mãe para retirar o balão, pois é preciso desobstruir as vias respiratórias antes do nascimento para que a criança respire normalmente após o parto”, completa.

O parto precisa ser realizado em uma unidade especializada em terapia intensiva neonatal e, após o nascimento, a criança segue assistida. Alguns bebês demandam uso de assistência ventilatória, outros precisam até de oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO), por isso o tempo de tratamento difere caso a caso e a cirurgia definitiva só acontece depois da melhora respiratória do neonato (recém-nascido). “Essa criança, na verdade, percorre um caminho longo desde o diagnóstico. Mas apesar de tudo parecer invasivo, é o que lhe oferece uma expectativa melhor de sobrevida e até de qualidade de vida, já que a cirurgia permite que o crescimento do pulmão siga acontecendo normalmente até próximo dos oito anos de idade”, conclui Miranda.


Sobre os Médicos
O Prof. Dr. Márcio Miranda e o Prof. Dr. Kléber Cursino de Andrade, que estão à frente do caso, são professores na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, e integram o Instituto de Medicina Materno-Fetal de Campinas. 
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