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28/06/2021 às 15h19min - Atualizada em 28/06/2021 às 15h19min

​Noventa anos da visita do Príncipe de Gales à América Sul, possibilidades de desenvolvimento perdidas

Roberto Bondarik / Folha de Londrina
Em 31 de março passado completaram-se 90 anos da visita, ocorrida em 1931, ao Norte do Paraná, do Príncipe de Gales e seu Irmão George, sagrado mais tarde como o Duque de Kent, tios da atual Rainha do Reino Unido. Evento considerado pitoresco ou exótico, é parte significativa da memória histórica das cidades de Cornélio Procópio, Jataizinho e Cambará. Lembrada por seu exotismo, a presença dos príncipes britânicos fazia parte de um projeto maior daquele país.

A missão deles era corroborar e dar publicidades aos projetos e investimentos realizados pelos britânicos na América do Sul, apresentando sua iniciativa em negócios como telecomunicações, telefonia, ferrovias, mineração, venda de terras e, principalmente na construção de condições que favorecessem a abertura de novas oportunidades de negócios e atração de mais investimentos e capitais a este continente.

Em 1931 a Grã-Bretanha desejava mostrar seus produtos industriais, poderio econômico, sua capacidade tecnológica e também militar à América do Sul. O longo caminho percorrido pelos dois príncipes, os conduziu desde Londres até ao Panamá, ao Peru, Chile, Argentina, Brasil e neste  Norte do Paraná.

O objetivo primeiro da visitação era, inicialmente, inaugurar a “Exposição Comercial Britânica” em Buenos Aires, na Argentina, em 14 de março de 1931. Era o primeiro evento deste porte que reunia todos os segmentos industriais, comerciais e tecnológicos produzidos pelo Reino Unido, em especial à Inglaterra e que, na América do Sul poderiam transformar-se em oportunidades de negócios.

Foram expostos equipamentos de telefonia, comunicação, locomotivas, automóveis, aviões de uso civil e militar. Também fundeou no porto de Buenos Aires o porta-aviões “Eagle”, belonave da marinha britânica equipada com modernos aviões de caça e bombardeio, semanas depois ele se apresentou no Rio de Janeiro.

Não sendo fruto do acaso, a viagem foi muito bem planejada afim de favorecer os interesses britânicos, econômicos, políticos e diplomáticos. O príncipe George foi escolhido para acompanhar seu irmão Edward, sob o argumento de que a viagem serviria para prepará-lo melhor para exercer funções como governador geral de algum dos domínios do Império, uma vez que, sabidamente, não se tornaria rei daquele país, pois estava atrás de Edward, o Príncipe de Gales, e de Albert, Duque de York e pai da atual monarca Elisabeth II.

Além das cerimonias oficiais, banquetes, festas e bailes, oferecidos pelos governos locais, empresas e organizações, os visitantes reais estiveram presentes em empreendimentos britânicos que eram emblemáticos da capacidade tecnológica e financeira.

No Peru, além de Lima, visitaram os campos de extração da “London Pacific Petroleum Company” que, anos mais tarde se transformaria na Esso. Em Santiago, no Chile, o príncipe Edward conversou, em 22 de fevereiro, por telefone com seu pai, o rei Jorge V, por meio da “Standard Telephones and Cables Limited”, cujos cabos cruzavam os Andes e atingiam Buenos Aires onde, por rádio, a ligação foi completada até Londres.

Visitaram os portos chilenos, atravessaram os Andes por meio da ferrovia, em construção, que ligava Salta, na Argentina, à Antofagasta no litoral do Chile.

Chegados ao Rio de Janeiro em 25 de março, depois dos compromissos, os príncipes rumaram a São Paulo onde visitaram, reconhecendo sua capacidade tecnológica e importância, já àquele tempo, o Instituto Butantã. Dali seguiram, em trem especial do Governo do Estado para o Norte do Paraná afim de visitarem os empreendimentos da “Paraná Plantations” por meio da Ferrovia São Paulo – Paraná e da Companhia de Terras Norte do Paraná.

Assim estiveram presentes em Cambará, Cornélio Procópio onde estavam as residências e escritórios dos engenheiros da ferrovia que se estendia pouco além desta estação. Foram a Jataizinho de automóvel, realizando a famosa “visita do Príncipe”, tão mencionada naquela cidade.

Observada dentro do contexto maior da visita a América do Sul e dos seus objetivos, a presença do Príncipe de Gales e do Duque de York no Norte do Paraná, permite aventar a hipótese de que os britânicos consideravam muito o potencial econômico da região e da abertura de novas oportunidades de negócios.

Não era apenas a produção de algodão ou a venda de terras que eram promessas, mas a própria ferrovia que havia sido projetada para cruzar a região até Guaíra, cruzar a fronteira e atingir Assunção, capital do Paraguai.

Relatórios da Parana Plantations apontavam que, uma vez concluída ela iria diminuir o tempo de viagem entre aquela capital e Londres em cerca de 15 dias, havendo possibilidade de realizar sua ligação com a malha ferroviária argentina, atingir Salta, por consequência Antofagasta e o Pacífico.

O potencial econômico e a história do Norte do Paraná poderiam ter sido outros. A Segunda Guerra e o afastamento dos britânicos pode ter afastado a possibilidade de interligação desses diversos empreendimentos na América do Sul.

Talvez o próprio Mercosul tenha perdido a oportunidade de aceler, economicamente, a integração do continente. Novas oportunidades de negocio, de produção, de trabalho e de riqueza ainda podem ser pensadas e conduzidas pelos diversos países.

Roberto Bondarik, professor  da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - Cornélio Procópio
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