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22/09/2021 às 11h37min - Atualizada em 22/09/2021 às 11h16min

E QUANDO NÃO HOUVER SAÍDA?

Setembro Amarelo e a prevenção ao suicídio

Marcelo Moya

No ano de 1994 um triste episódio marcou uma cidade do interior dos Estados Unidos chamada Westminster-CO. Ali vivia um jovem chamado Mike Emme que tinha um Ford Mustang de cor amarela resultado de sua dedicação na restauração do veículo e que até lhe rendeu um apelido. Apaixonado por carros, era visto por todos com um jovem alegre, de bem com a vida, bom humor, ótimas relações, características típicas de pessoas que desfrutam do pleno de sua juventude aos 17 anos de idade.

Mas no dia 08 de setembro daquele ano, entre onze horas e meia-noite, algo chocou profundamente a população local. Este promissor rapaz foi encontrado dentro de seu famoso carro, morto com um tiro. A polícia achou junto um bilhete pedindo desculpas aos pais e dizendo o quanto ele os amava. Mike havia tirado a própria vida. Ninguém conseguia acreditar naquilo e todos perguntavam como isso era possível se ninguém notava nada de direfente nele que poderia justificar brutal ação.

Em seu velório houve uma mobilização local que se logo se alastraria por todo o país e se transformaria numa campanha de dimensões internacionais. Foram distribuídos fitas amarelas com cartões (devido a cor do carro e o apelido que o jovem tinha - o Mike do Mustang Amarelo), com o seguinte dizer: “Se você precisar, peça ajuda!”. Nascia ali o Setembro Amarelo.

Realizada no Brasil desde 2014 por iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria em parceria com o Conselho Federal de Medicina, a campanha remete ao 10 de setembro, oficialmente Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Embora se intensifique no mês da primavera, esta mobilização acontece durante todo o ano com objetivo de conscientizar sobre a prevenção ao suicídio, buscando alertar a população e tentar reverter esta quadro por meio de ações que envolve entidades públicas e privadas, órgãos de saúde, escolas, universidades, igrejas, empresas, etc, e despertar um olhar para a vida e a importância do cuidado com o próximo em seu adoecimento mental, independente da classe social e faixa etária.


Dados da Organização Mundial de Saúde apontam que a cada quarenta segundos uma pessoa tira a própria vida, e a cada três segundos houve uma tentativa não consumada. Mais de um milhão de suicídios acontecem por ano em todo o planeta. O suicídio é uma das principais causas de mortalidade, sendo a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, por exemplo. Em território nacional são registrados mais de doze mil suicídios e os números só têm aumentado nos últimos anos.

Cercado de mistérios, tabus e por delicadas questões éticas, culturais, morais e religiosas, o suicídio é considerado um grave problema de saúde pública e são diversos os fatores que podem influenciar uma pessoa atentar contra a própria vida, sendo que as principais causas são a depressão, transtornos e doenças mentais como a esquizofrenia, o uso de substâncias psicoativas, além do sentimento de absoluta impotência diante d
as inúmeras pressões, perdas e frustrações da vida adulta.

O bullying também vem se tornando um fator preemente entre crianças e adolescentes. O seriado Os 13 Porquês inspirado no livro de Jay Asher e disponível na plataforma Netflix é uma boa referência para o debate e reflexão, e as influências das mídias digitais como a Boneca Momo, a Baleia Azul e os jogos violentos como o GTA também servem como sinais de alerta e atenção das famílias.

A OMS ainda adverte que mais de 90% dos casos poderiam ser prevenidos com medidas simples como uma conversa, informação, suporte familiar, além da ajuda de especialistas para enfrentar e superar o problema, haja vista que na maioria dos casos quem se suicida não quer desistir de viver, mas se livrar da dor pela qual não consegue encontrar uma saída
sozinho. Sabe-se que pelo menos dois terços dos atos cometidos foram sinalizados pela pessoa semanas antes a parentes e amigos próximos acerca da intenção de fazê-lo, o que desafia a sociedade em ações ainda mais vigilantes e eficazes.

Também é válido esclarecer que existem alguns mitos que precisam ser desfeitos em torno do comportamento suicida, tais como: que a pessoa não avisa, que isso não pode ser prevenido, que a pessoa só quer chamar atenção, que quem tenta uma vez não tenta novamente ou que falar abertamente sobre este assunto irá estimular a realização, o que de fato não procede. 

A psicanálise se pauta por uma série de modelos teóricos que ajudam na construção de consistentes reflexões sobre este tema a partir de conceitos cunhados na metapsicologia, entre estes, o luto, estágios melancólicos, narcísicos e maníacos, a desintegração do eu, as estruturas psíquicas, as fantasias inconscientes, as ansiedades, os mecanismos de defesas, as funções de pensamento, etc. 

Mas é pela exploração de dimensões inconscientes experienciadas numa análise que existe a possibilidade de pensar as relações com os invevitáveis estágios depressivos e ansiógenos, ressigificar as emoções, abrir-se para novos vértices de compreensão d
a vida e da morte, por exemplo, da responsabilização das escolhas, decisões e do próprio sofrimento, e de seguir crescendo mentalmente, superando as contradições da vida e encarando-a com mais perspectiva e propósito.

Além de profissionais especializados, existe o CVV (Centro de Valorização da Vida) que pode ser acessado através do telefone 188 ou pelo site cvv.org.br onde dispõe outras opções de acesso. O site podefalar.org.br oferece ajuda para jovens e adolescentes entre 12 a 24 anos, e também as políticas públicas de atenção à saúde mental como os serviços ofertados pelos Caps (Centro de Atenção Psicossocial). No site setembroamarelo.com é possível obter mais informações e encontrar orientações importantes sobre como proceder com pessoas de tendências ou sinais suicididas.


E você, tem planos para o futuro? Sente que sua vida ainda vale a pena ser vivida ou está difícil demais? O importante é que em qualquer sinal de alerta, procure ajuda. Como canta a banda Titãs: “Quando não houver saída, quando não houver mais solução, ainda há de haver saída, nenhuma ideia vale uma vida... é caminhando que se faz o caminho... enquanto houver sol, ainda haverá...".

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Marcelo Moya é psicanalista, membro do Instituto Ékatus e docente no Programa de Formação e Cursos de Extensão da Escola Paulista de Psicanálise - EPP. Mais informações: www.marcelomoya.com.br 

 
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Marcelo Moya

Psicanalista, membro do Instituto Ékatus da Escola Paulista de Psicanálise.

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