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02/11/2020 às 00h51min - Atualizada em 02/11/2020 às 00h36min

A MORTE NA MENTE DOS VIVOS

Um jeito de pensar a vida

Marcelo Moya
 
A homenagem em memória dos mortos, também conhecido como Dia de Finados, começou a ser praticado no ocidente principalmente por iniciativa do cristianismo romano no segundo século, e fontes históricas afirmam que foi por volta do século XIII que a data se tornou oficialmente instituída nas pautas do calendário litúrgico de Roma.

Mas a atenção aos mortos não se restringe apenas às confissões religiosas ocidentais. O tema remonta os primórdios das civilizações e povos do mundo todo, e que de alguma maneira sempre avultaram a morte através de suas culturas, crenças e ritos. Em países como o México, por exemplo, o tema da morte está profundamente enraizado nos costumes e tradições daquela nação centro-americana.

Mas afinal, o que é a morte? Para alguns talvez represente o fim de tudo, um ponto final. Para outros, um meio para se obter a eternidade ou a oportunidde de novos recomeços. Os vértices religiosos ou espiritualistas normalmente se alicerçam a partir de três principais perguntas existenciais da humanidade: de onde viemos, por que estamos aqui e para onde vamos depois desta vida, e neste ponto, o tema da morte se torna um conceito central das indagações do ser humano.

E como a morte é pensada na mente dos vivos? O escritor Ernest Becker em seu premiado livro A Negação da Morte aponta que ela é uma ideia que move a vida. A psicanalista Melanie Klein considera que o medo da morte é a causa primária da ansiedade desde o nascimento. Freud teceu desdobramentos acerca da melancolia (depressão) fazendo associações às experiências de luto e organizando modelos de teorias pulsionais nominando-as de vida e morte.

"... se da morte não se obtém muitas respostas, dela ao menos
se pode evocar uma pergunta: afinal, o que é a vida? "

 
A herança de aspectos culturais, religiosos, filosóficos, sociais, antropológicos e até científicos sustentam a complexidade acerca da reflexão da finitude do ser. De qualquer forma, o Dia de Finados é um momento bastante apropriado para refletir a vida na perspectiva da morte. Aliás, se da morte não se obtém muitas respostas, dela ao menos se pode evocar uma pergunta: afinal, o que é a vida?

A médica Ana Cláudia Arantes, especialista em intervenções de luto e cuidados paliativos com pacientes em estado terminal em São Paulo, afirmou numa palestra que "a morte não é bonita, e que embora sua beleza seja o impar de uma tristeza, a vida sim que é bonita", como bem cantou Gonzaguinha, “eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita, é bonita...”
 
O médico patologista e professor Paulo Saldiva afirmou que, “no fundo, o verdadeiro mistério não está na morte, mas está na vida”, e que embora seja capaz de emitir um atestado de morte, jamais dará um atestado de vida dado a sua complexidade. Embora a vida seja às vezes um soco no estômago como escreveu Clarice Lispector, "viver é melhor que sonhar, a vida é uma coisa boa" como compôs Belchior.

 
"... é morrendo que se aplaca o insuportavel da vida, ou é vivendo
intensamente que se obtém um alento para o insuportável da morte?

Se muitos vivem como se já estivessem mortos, tantos outros viverão para sempre apesar de já terem morrido. Retomando Lispector, "cada dia é um dia roubado da morte, mas é esta morte que nos ajuda a suportar às vezes o insuportável”, e neste caso nos indagamos: será que é morrendo que se aplaca o insuportavel da vida, ou é vivendo intensamente que se obtém um alento para o insuportável da morte?

Embora tão paradoxal possa parecer o viver e morrer que inspiram de poetas a pregadores, é na dor e na saudade pelos que já partiram que se reivindica o consolo, a serenidade e o silêncio, mas que sirva também como uma fagulha que mantenha acesa não somente a chama pela vida, mas a oportunidade para pensar e ressignificar a nossa breve peregrinação neste mundo com mais humildade e virtude.

 
Faço minhas as palavras do saudoso psicanalista britânico Winnicott que certa vez disse: “ quando eu morrer, eu quero estar bem vivo.” Até porque, como bem cantou Raul Seixas, “a morte, surda, caminha ao meu lado, e eu não sei em que esquina um dia ela vai me beijar ...” 

"Mas pra aprender a morrer, foi necessário viver, e eu vivi ..."  (Baden Powell)

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Marcelo Moya 
é psicanalista, docente no programa de formação e de cursos de extensão da Escola Paulista de Psicanálise. Reside em Jacarezinho/PR. Atende local e on-line com sessões de análise, espaço de escuta, supervisão clínica, cursos e palestras. Para maiiores informações acesse: www.marcelomoya.com.br. 
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Marcelo Moya

Marcelo Moya

Psicanalista filiado ao Instituto Melanie Klein da Escola Paulista de Psicanálise.

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