15/10/2022 às 10h10min - Atualizada em 15/10/2022 às 10h07min

A 'IMPOSSÍVEL' PROFISSÃO DO PROFESSOR

"Cuida do teu ensino, mas também de você mesmo; persevere nisso, agindo assim, preservará tanto a sua própria vida como a dos seus aprendizes." (São Paulo).

Marcelo Moya

Marcelo Moya

Psicanalista, membro docente do Instituto Ékatus da Escola Paulista de Psicanálise.

*Marcelo Moya

Dia 15 de Outubro comemora-se o Dia do Professor. Foi nos tempos do Império que D. Pedro I - em homenagem à professora Santa Tereza de Ávila - decretou o ensino fundamental no Brasil, na época Escolas das Primeiras Letras que promovera o surgimento de escolas nas províncias mais distantes por meio de uma série de normativas e currículos. Aos meninos, a leitura, escrita, cálculos e álgebra. Às meninas, o ensino da economia e das prendas domésticas.

A data se tornou feriado no país ainda na década de 40, mas foi apenas no ano de 1963 que foi regulamentada: “ - Para comemorar condignamente o Dia do Professor, os estabelecimentos de ensino farão promover solenidades, em que se enalteça a função do mestre na sociedade moderna, fazendo participar os alunos e as famílias”, atesta o Decreto Federal.

O Dia do Professor também é celebrado pela UNESCO com objetivo de comemorar a aprovação da recomendação da entidade juntamente com a Organização Internacional do Trabalho sobre o Estatuto dos Professores, aprovado em outubro de 1966 em Paris.

Da Grécia Antiga com a pedagogia Aristotélica até as Escolas Novas dos século XX, a educação foi assumindo histórica e gradativamente seu protagonismo no centro das discussões políticas e sociais no mundo, e hoje em tempos de neomodernidade e avanços tecnológicos, segue rompendo velhos paradigmas, vencendo barreiras e passando por significativas transformações.

 
"É quase como se o analisar fosse aquela terceira das profissões 'impossíveis'...
as outras duas, conhecidas há muito mais tempo, são o educar e o governar. ”
(Sigmund Freud)

Mas a figura essencial e jamais preterida no âmbito destas reflexões é o professor. O ‘pedagogo’ numa tradução literal que significa ‘aquele que guia’, surgiu há mais de três milênios antes de Cristo, um escravo de famílias ricas  designado para acompanhar as crianças até o mestre, embora era com este que elas mais interagiam, conviviam e se preparavam. Pessoas eram selecionadas para ensinar certas habilidades desde os tempos do Antigo Egito, tradição que se manteve nos costumes religiosos, principalmente no judaísmo.

A psicanalista britânica Melanie Klein (1882-1960), em seu artigo “O papel da escola no desenvolvimento libidinal da criança”, publicado na coletânea Amor, Culpa e Reparação e Outros Trabalhos, considera que “ ... na vida da criança, a escola significa o encontro com uma nova realidade, que muitas vezes parece muito dura...”, e aponta para a figura do professor como substituto simbólico da figura materna que contribui positivamente durante este processo. Afinal, quem não se lembra da primeira professora no início da vida escolar e o quanto ela foi importante para os primeiros passos do aprender?
 
O criador da psicanálise Sigmund Freud (1856-1939), em seu artigo “Análise Finita e Infinita" (1937), faz a seguinte consideração: “ - É quase como se o analisar fosse aquela terceira das profissões “impossíveis” ... as outras duas, conhecidas há muito mais tempo, são o educar e o governar.”  As realidades da educação ainda tão distantes do ideal, a incansável luta por melhores políticas públicas, e os colaterais efeitos sociais e econômicos que atigem diretamente a vida escolar, educar torna-se uma arte do impossível mas que felizmente colhe seus milagres.

Mas chamamos a atenção para um tema que expomos em uma de nossas palestras ministradas nas escolas, “Professores à beira de um estado dos nervos” , que aborda a importância do bem-estar mental de quem se dedica por vocação ao ofício de ensinar. Números apontam que mais de 70% (setenta por cento) dos profissionais de educação que deixam de trabalhar temporariamente ou em caráter definitivo em sala de aula se dá por condições psicológicas ou psiquiátricas, principalmente pela depressão, transtornos de ansiedade, estresse, insegurança, violência até outras alterações em níveis mais severos de saúde mental. Como bem disse Mário Cortella “ ...quando o modelo de vida que vivemos nos leva a um esgotamento, é fundamental questionar se vale a pena continuar insistindo no mesmo caminho... “, reitera o filósofo.

 
"Cuida do teu ensino, mas também de você mesmo; persevere nisso, agindo assim,
preservará tanto a sua própria vida como a dos seus aprendizes." (São Paulo).

Emoção, do latim movere ou movimento, é aquilo que nos moveO pintor holandês Vincent van Gogh (1853-1890) certa vez disse “... as emoções são os grandes capitães da nossa vida, obedecemos-lhes sem nos apercebermos". Como um jogador de futebol que coloca sua emoção no 'bico de sua chuteira', assim um educador e sua paixão e sentimento na tarefa abnegada de ensinar. 

Desgastes físicos, relacionais e mentais são inevitáveis em qualquer profissão, razão pela qual a qualidade de vida e bem-estar mental é fundamental para todos nós. Para a psicanalista portuguesa Emanuela Fleming, “ ...a dor mental apresenta-se por vezes como uma potência sem nome, dominadora e cruel, impondo uma lógica tirânica...", afirma em seu livro Dor Sem Nome.

Aos mestres, o desafio de seguirem perseverando na arte de edcuar, cuidando de si, da autoestima, da valorização da classe, e claro, exercendo sempre o pleno direito de reivindicar o devido respeito que merecem de toda a sociedade. E citando novamente São Paulo,  "... o que ensina, esmere-se no fazê-lo!, escreve em
 sua carta aos Romanos"

Neste Dia do Professor, cantemos com a sambista Leci Brandão: “Professores, protetores do meu país,  eu queria, como eu gostaria, de um discurso bem mais feliz, porque tudo é educação, e matéria de todo o tempo, ensinem a quem pensa que sabe de tudo, a entregar o conhecimento, batam palmas para ele, batam palmas pra ele, que ele merece!”. Parabéns aos professores.

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Marcelo Moya é psicanalista, membro docente do Instituto Ékatus da Escola Paulista de Psicanálise. Sessões de Análise, Espaço de Escuta, Cursos e Palestras. Atendimento Online nacional e internacional. Reside em Jacarezinho/PR. www.linktree.com/marcelomoya 
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