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28/03/2021 às 21h38min - Atualizada em 28/03/2021 às 20h32min

IMAGINA, ISSO JAMAIS IRÁ ACONTECER COMIGO!

Pensamentos onipotentes na pandemia.

*Marcelo Moya
 
Tempos realmente difíceis estes que estamos vivendo. Diariamente somos dominados por sentimentos ambivalentes entre a esperança pela chegada de dias melhores principalmente em relação às medidas de combate à pandemia que se arrasta há um ano, e da tensão vivida frente aos índices alarmantes do aumento diário de pessoas contagiadas e vítimas fatais do Covid-19.

Mesmo com um forte apelo existente para que a população abrace as medidas preventivas essenciais como distanciamento social, uso de máscara, lavagem e álcool das mãos e superfícies, além das orientações restritivas para que se sejam evitadas aglomerações, a impressão que nos causa é que ainda estamos caminhando exata e desordenadamente no sentido contrário de tudo disso.

 
O que se vê em todas as regiões do país são pessoas, que independente de classe social, violam regras e desacatam autoridades através de organizações de festas, eventos religiosos, aglomerações de lazer, enfim, ajuntam-se justificadas por todos os tipos de contextos e pretextos, sempre na maioria das vezes displicentes e às escondidas, e com raras exceções de intervenção policial ou do poder público.
 
Isso vem despertando na sociedade muita revolta, repulsa e indignação principalmente pela grande maioria da população, e que embora vem seguindo firmemente com todas as orientações, normalmente se tornam alvo fácil de contaminações disseminadas por estes aventureiros insanos e inconsequentes.
 
Sigmund Freud escreveu que “duas coisas fazem o ser humano sofrer, neste caso, a doença e a estupidez”. E agora estamos sendo exatamente afligidos por ambas ao mesmo tempo.
 
Mas afinal, o que leva uma pessoa agir dessa maneira? Por que ela insiste em querer violar regras se achando acima do bem e o do mau, e quando indagada, cerca-se de justificativas mais infundadas e absurdas. As razões são diversas, mas ressalto alguns apontamentos para nossa reflexão.

Albert Einstein certa vez disse que “duas coisas são infinitas, a saber, o universo e a estupidez humana, em relação ao universo, não tenho certeza absoluta”. De fato, a ignorância não somente cega, mas contagia outros e se torna uma grande muralha que separa o mundo. Na mesma direção Sigmund Freud também escreveu que “duas coisas fazem o ser humano sofrer, neste caso, a doença e a estupidez”. E agora estamos sendo exatamente afligidos por ambas ao mesmo tempo.

Mas isto nos abre um vértice para pensar sobre a natureza psíquica e suas psicopatologias. Freud vai nos dizer que a nossa personalidade se alicerça sobre um modelo ilustrativo de tripé que ele denominou de neurose, psicose e perversão, e que embora a maioria se fixe na neurose, todavia oscila-se entre elas, ou seja, todos nós em algum momento nutrimos sentimentos e agimos por contornos psicóticos ou perversos, com exceção daqueles sujeitos mentalmente adoecidos.

Também vai falar que o nosso Eu se organiza de formas defensivas diante de ideias e sentimentos percebidos como conflituosos. E o que podemos dizer a respeito? Que desviar-se da realidade em demasia e agir de forma alheia a tudo o que se passa ao redor de si sem se dar conta do possíveis riscos e consequências simplesmente a serviço do bel prazer e da satisfação a todo custo apontam para um ser absolutamente regredido a um mundo mental delirante e alucinatório.

 
"... cada um age conforme a natureza que possui..."

Indivíduos plenos de altivez como seres divinos e poderosos, na ilusão de se sentirem imunes das mazelas e fragilidades da vida humana, denotam explicitamente características patológicas de perturbações mentais extremamente rudimentares e de absoluta defesa psicótica onipotente. Falecido recentemente, o psicanalista Contardo Calligaris (1948 - 2021) havia afirmado que "a patologia, nesta pandemia, não está no suposto pânico, mas na negação do que está acontecendo."

Certa vez um homem caminhava pelo bosque com um amigo, e ao avistar um escorpião se afogando no lago, o retirou da água. Imediatamente o animal lhe desprendeu um ferrão. Aquele homem indagado pelo amigo pelo fato de ter salvado àquele que depois o machucou respondeu: - agi com minha natureza, o escorpião com a dele. Neste caso, cada um age conforme a natureza que possui.

Não bastam apenas empreender medidas cíveis de repressão e punição (embora necessárias), porque a natureza de um ser psiquicamente comprometido o fará agir novamente por tantas outras vezes independente do que lhe for imposto como sanção. Neste caso, o que resta é uma intervenção psiquiátrica e anos a fio de análise. O que passar disso, só nos cabe acreditar em milagre.


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Marcelo Moya é psicanalista, membro do Ékatus Instituto e docente no programa de formação e de cursos de extensão da Escola Paulista de Psicanálise/SP. Sessões de Análise | Espaço de Escuta | Supervisão | Cursos e Palestras. Informações: www.marcelomoya.com.br | Fone-WhatApp (43).9.9102-6577

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Marcelo Moya

Marcelo Moya

Psicanalista, membro do Instituto Ékatus da Escola Paulista de Psicanálise.

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