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12/06/2021 às 00h17min - Atualizada em 12/06/2021 às 00h16min

POR QUE AS PESSOAS SE ATRAEM?

Pensamentos sobre paixão e amor.

Marcelo Moya
 
O Dia dos Namorados é uma data celebrada em diversos países, e algumas fontes atestam que o evento advém de uma festividade romana que homenageava Juno, rainha dos deuses, esposa de Júpiter e deusa do matrimônio. Em alguns lugares é comemorada no dia 14 de fevereiro relacionada a São Valentim e no Brasil o dia 12 de junho foi escolhido devido a Santo Antonio, considerado pela tradição católico-romana como o patrono dos casamentos, o popular santo-casamenteiro.

Estamos falando de um momento do ano quando pares apaixonados se dedicam às trocas de presentes e tudo quanto a criatividade permitir, é quando as juras de amor são reafirmadas mediante um clima de romantismo, cujas mentes e corações transbordam de magia, beleza e encantamento.

E por que as pessoas se atraem dessa maneira? Este é um tema cercado de mistérios, fantasias e complexidades da natureza humana com profundas e rudimentares raízes culturais, sociais, étnicas, antropológicas, religiosas, filosóficas, biológicas e psíquicas, e mesmo se tratando de um tema tão vasto, insistimos em pensar e falar sobre ele porque é uma das emoções básicas que nos move e faz viver.

A chamada química da paixão envolve uma quantidade de estímulos capazes de produzir sensações de bem-estar e felicidade através da liberação de substâncias como dopaminas e feromônios que torna tudo mais interessante, fazendo emergir sentimentos, emoções, sonhos, riscos, perigos e sedução.

 
"Somente quando formos capazes de reconhecer e aceitar o outro de maneira integral, total, é que estaremos dando um importante e genuíno passo na construção de um verdadeiro amor."
 
Sigmund Freud elaborou teorias ancoradas em modelos da sexualidade. Temas como libido, desejo e relação formam um entrelaçamento de conceitos que conferiram à psicanálise, segundo Freud, na 'essencialmente cura pelo amor.' E quando o assunto é amar, as pulsões avançam em dois movimentos. Primeiro aquele amor por si, o amor narcísico e posteriormente, se nada der errado, um amor que se move para o outro, o amor objetal. Ele afirma que amamos a partir do que somos, fomos, gostaríamos de ser ou de ter sido, ou seja, em tese, o amar carrega traços predominantemente egoístas.

Para Melanie Klein, umas das mais importantes psicanalistas depois de Freud, as primeiras experiências emocionais se desenvolvem de forma fragmentada, parcial, e na medida que percepções da realidade tomam forma, passamos a nos relacionar de maneira mais total, integral. E o que isso pode significar? Que paixão e amor nunca serão a mesma coisa. Toda paixão é de certa forma multifacetada, incompleta. Não se ama enquanto um todo não se estabelece. Apaixona-se por alguém  mediante a atração e encantamento por aspectos específicos daquela pessoa por quem nos fixamos.

Somente quando formos capazes de reconhecer e aceitar o outro de maneira integral, total, é que estaremos dando um importante e genuíno passo na construção de um verdadeiro amor. Desta feita, sendo a paixão parcial, cindida, projetiva, às vezes até insana e, portanto, mais propensa a cessar e falhar (que o diga os grandes e trágicos romances da literatura), o amor implica numa forma de relação mais integral, duradoura, de aceitação, reconhecimento, plenitude e maturidade.
 
"Amar é dar ao outro o que não se tem para alguém que não o quer.'
 
Será que as relações vêm se tornando cada vez mais superficiais, líquidas e com prazo de validade reduzido? Exigimos do outro somente aquilo que nos interessa, nos apaixonamos não por alguém, mas apenas por uma parte desse alguém. Se realmente são os opostos que se atraem, talvez seja para se distraírem com suas paixões. O amor une semelhantes que, embora incapazes de notar isso, avultam as pequenas diferenças para seguirem persistindo na arte de viverem unidos.

Amar demanda tempo, amadurecimento emocional e capacidade de suportar as frustrações de uma relação que longe de ser perfeita, implica na aceitação não apenas do que é bom ou ideal no outro, mas também suas contradições, para que assim sejamos capazes de 'dar ao outro o que não se tem para alguém que não o quer' como certa vez afirmou o psicanalista Jaques Lacan.

Para Freud, melhor mesmo é que o tema do amor fosse exclusividade dos poetas. E se for da parte para o todo que relações se engatilham, então que a paixão (cuja etimologia phatos remete a dor, sofrimento) nos conduza até o amor duradouro e feliz, e se vier a cessar antes disso, ao menos não nos furte a capacidade de seguir a vida sem esmorecer, mesmo que isso contrarie os boêmios.

E como escreveu Fernando Pessoa: “Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?” Se por paixão ou amor, se por partes ou pelo todo, se na loucura ou na lucidez, na razão ou na estupidez, a todos os amantes e apaixonados um jubiloso dia dos enamorados.


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Marcelo Moya é psicanalista. Membro do Ékatus Instituto da Escola Paulista de Psicanálise onde é Docente e Tutor no Programa de Formação e Cursos de Extensão. www.marcelomoya.com.br.

           
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Marcelo Moya

Marcelo Moya

Psicanalista, membro do Instituto Ékatus da Escola Paulista de Psicanálise.

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